“Ele nunca tinha tido uma atitude parecida. Com a pandemia, a quarentena afetando nossa vida financeira, o estresse, a preocupação com grana… Acho que tudo isso fez com que ele perdesse a cabeça”. O desabafo acima foi feito por telefone. Do outro lado da linha, Renata Albertin, cofundadora do Mete a Colher, rede colaborativa que ajuda mulheres a saírem de relacionamentos abusivos, se preparava para orientar mais uma vítima de violência doméstica durante a pandemia.

Um levantamento realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostrou que o número de ocorrências de violência contra a mulher aumentou em seis estados — São Paulo, Acre, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Pará —, em comparação ao mesmo período em 2019.

A crescente tensão nas relações tem ficado clara para quem acompanha os casos de violência contra a mulher neste período.

“Quando as mulheres nos procuram, elas já estão muito desgastadas emocionalmente. Com medo de que o homem, mais presente em casa, tome uma atitude agressiva”, explica Renata. Após o primeiro contato com a rede e com a compreensão da situação enfrentada, a vítima é orientada sobre quais delegacias e centros de referência e proteção à mulher estão abertos durante a quarentena.

Em São Paulo, onde avenidas foram fechadas para evitar uma circulação maior e estimular o isolamento social, os boletins de ocorrência agora podem ser registrados online. Para Renata, que se dedica a pesquisar a rota crítica da violência doméstica, a medida é importante para facilitar o caminho das mulheres que decidem sair de um relacionamento abusivo.

A recomendação do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos é para que órgãos de políticas para mulheres não paralisem o atendimento durante esse período. Além disso, o Disque 100 e o Ligue 180 estão funcionando diariamente, 24 horas por dia.

Violência psicológica é tão perversa quanto a física

 Com a quarentena e um convívio maior com o companheiro dentro de casa, a mulher pode estar sujeita à agressão física como também moral, que afeta não só a saúde mental como limita a sua capacidade de autonomia. É nesse momento de fragilidade que campanhas de conscientização e prevenção, assim como grupos de apoio, atuam de forma efetiva mostrando para a vítima cenários possíveis e maneiras para sair de uma situação opressora.

Redes de apoio e laços de afeto fortalecem a luta Pensando em muitas mulheres que não tem a casa como lar, um espaço de refúgio e descanso, coletivos e organizações se uniram em campanhas espalhadas nas redes sociais com o intuito de formar um grande movimento de solidariedade. Uma das iniciativas é a #VizinhaVocêNãoEstáSozinha, da rede Agora É Que São Elas, com o objetivo de mostrar que a mulher não precisa se calar diante de qualquer tipo de agressão.

A campanha #VizinhaVocêNãoEstáSozinha, que contou com a divulgação de outras iniciativas nas redes como o “Tem Açúcar” – aplicativo de colaboração e trocas de gentilezas entre vizinhos -, também tem ajudado a pressionar governadores a disponibilizarem quartos das redes de hotéis que estão vazios para acolher, durante o período do isolamento social, mulheres que estão sofrendo agressões e não têm para onde ir.

Precisa de ajuda? Confira a lista de iniciativas que ajudam a mulher no enfrentamento à violência doméstica: https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2020/05/08/mulheres-formam-redes-de-apoio-contra-a-violencia-domestica-na-pandemia.htm.

Mulheres formam redes de apoio contra a violência doméstica na pandemia
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